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Indicadores Económicos

Economia da floresta: quanto vale?

Com um volume de negócios de 9 mil milhões de euros na indústria de base florestal e mais de 1,2 mil milhões de euros gerados pela produção silvícola em 2017, a economia da floresta tem um impacte muito significativo nas contas nacionais. Mas esta é apenas uma parte da economia da floresta. De fora ficam valores não contabilizados e difíceis de mensurar – como o contributo para o turismo de natureza, a biodiversidade ou a produção de oxigénio, entre muitos outros.

A floresta é fonte de diversas atividades, matérias-primas e serviços. Como resultado, o seu contributo para a economia portuguesa é indiscutível. Embora não existam estatísticas oficiais que tracem o retrato completo da economia da floresta em todas as suas componentessabemos que as indústrias de base florestal – madeira, cortiça, mobiliário, e pasta, cartão e papel  – geraram, em 2017, um volume de negócios superior a 9 mil milhões de euros. No mesmo ano, a produção de bens e serviços da silvicultura e exploração florestal ultrapassou os 1,2 mil milhões de euros.  

Estes números significam que indústria de base florestal e silvicultura contribuíram, respetivamente, para cerca de 4,6% e 0,6% do Produto Interno Bruto nacional (PIB) em 2017, ou seja, do valor de todos os bens e serviços finais produzidos em Portugal em 2017.

Contributo nacional da indústria de base florestal e silvicultura

VAB gerado pela indústria de base florestal e silvicultura em Portugal

Juntas, nesse mesmo ano, foram responsáveis por cerca de 3 mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto (VAB), ou seja, do valor da atividade produtiva nacional menos os custos de produção. 71,5% resultou da atividade industrial.

Isto significa que o VAB do sector florestal representa, aproximadamente, 1,8% do VAB nacional total e 1,6% do PIB português, um contributo que se manteve relativamente estável em relação a 2016.  

Os dados da silvicultura resultam das Contas Económicas da Silvicultura 2017, a publicação do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) que sistematiza as atividades deste sector, enquanto a informação sobre as indústrias de base florestal está agregada nas estatísticas sectoriais da Direção-Geral das Atividades Económicas.  

Contributo do VAB das indústrias de base florestal e silvicultura
na economia nacional

Papel, mobiliário, madeira e cortiça: os pesos-pesados da economia da floresta

As indústrias de base florestal são uma componente robusta do sector e da indústria transformadora nacional. Os seus contributos para a criação de riqueza, investimento e produtividade são indispensáveis à saúde financeira de Portugal, assim como o número de empregos gerados (quase 70 mil postos de trabalho em 2017 em perto 10 mil empresas, sobretudo nas regiões Norte e Centroas exportações, que atingiram mais de 2 mil milhões de euros em 2017  

No total, estas indústrias representaram, em 2017, um VAB de mais de 2 mil milhões de euros (10% do VAB da indústria portuguesa) e um volume de negócios superior a mil milhões de euros. Isto significou 4,6% do PIB português e um décimo do volume de negócios de toda a indústria transformadora nacional.

É ainda de destacar, em matéria de investimento, que estas indústrias registaram, em 2017, 626,36 milhões de euros em Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), ou seja, de investimento em ativos fixos usados por mais de um ano na produção de bens e serviços, como é o caso de software ou maquinaria

Contas feitas, tratou-se de um investimento sectorial que representou 13% do montante em FBCF do total da indústria transformadoraembora os valores de investimento estejam em queda nos últimos dois anos: de 915,82 milhões de euros em 2015 para 614,36 milhões em 2017. 

Evolução das indústrias de base florestal, por indicador económico
2012 – 2017

Dentro das indústrias da base florestal, os quatro grandes subsectores – madeira, mobiliário (excluindo o fabrico de colchões), cortiça e pasta e papel – têm contributos bastante diferentes para a economia da floresta.

A indústria da pasta e papel assume a dianteira no que concerne ao volume de negócios, com praticamente metade dos resultados obtidos no total das indústrias de base florestal e em linha com anos anteriores: 46,3%, equivalente a 4,18 mil milhões de euros.

Seguem-se a indústria do mobiliário, excluindo colchões, e a indústria da madeira, com volumes de negócios de 1,64 e 1,63 mil milhões de euros, respetivamente, e a da cortiça, que gerou 1,58 mil milhões de euros.  

No que diz respeito ao VAB, a pasta e papel assegurava, em 2017, 869,69 milhões de euros, o que representava cerca de 40% dos 2,18 mil milhões de riqueza gerada pelas indústrias de base florestalApesar de esta ser uma subida em relação a 2016, estes ainda são números aquém dos mais de 883 milhões de VAB registados por este subsector em 2015. As restantes indústrias têm mantido uma trajetória crescente nos últimos anos, embora com um resultado económico mais modesto.  

Maior produtividade da mão de obra no sector florestal

Entre 2016 e 2017, as indústrias de base florestal registaram um aumento da produtividade da mão de obra. Para medir este desempenho, a Direção-Geral das Atividades Económicas utiliza o indicador da produtividade aparente por fator trabalho, ou seja, o VAB que cada pessoa ao serviço gera, em média. Em 2017, esta produtividade aparente ultrapassou os 30 mil euros, considerando as diversas indústrias ligadas à floresta.  

Também aqui as empresas dedicadas à pasta e papel têm um desempenho acima da média: 77 mil euros por pessoa, em 2017. Se nesta análise forem excluídas as empresas dedicadas ao fabrico de canelado, a produtividade aparente ascende a valores incomparavelmente mais elevados, chegado aos 251 mil euros de VAB por pessoa ao serviço.  No restante sector industrial de base florestal, a produtividade aparente é menor. O subsector do mobiliário regista 17,6 mil euros; a cortiça chega aos 40,7 mil euros; e a madeira está nos 20,7 mil euros.  Este indicador revela também as discrepâncias existentes por subsetor no que diz respeito à criação de emprego florestal.

Evolução da produtividade das indústrias de base florestal
2012 – 2017

Silvicultura: valor da produção mantém-se acima de 1,2 mil milhões de euros

As atividades silvícolas (sector primário) têm também um impacte relevante na economia da floresta, embora menor do que as indústrias que sustentam. Segundo as Contas Económicas da Silvicultura 2017, o peso relativo do VAB das atividades silvícolas na economia nacional rondou os 0,5%. Este é um contributo semelhante ao registado em 2016 e coloca Portugal a meio do “pelotão” europeu no que diz respeito ao peso da silvicultura para as contas de cada país.

Apesar de estar longe de países como a Letória ou a Finlândia, cujo peso relativo do VAB da silvicultura no VAB da economia ronda os 2%, a verdade é que Portugal supera outros países da Europa mediterrânica com grandes áreas florestais, como a Espanha, Itália e França, com contributos do sector primário entre 0,1% e 0,2% do VAB, como referem as Contas Económicas da Silvicultura. 

No balanço do ano nacional, o valor total resultante da produção silvícola aumentou para 1259,6 milhões de euros  em 2017, mantendo-se por três anos consecutivos acima de 1,2 mil milhões de euros. O maior contributo para este total, com cerca de 70%, vem do subsector Produção de Bens Silvícolas, com Madeira de Folhosas para Triturar e a Cortiça a darem os contributos mais expressivos: cerca de 291 milhões de euros e de 263 milhões de euros, respetivamente. 

Apesar deste aumento, o VAB da silvicultura desceu pelo segundo ano consecutivo: -1,0% em valor, em 2017. A descer esteve também o investimento realizado, com a Formação Bruta de Capital Fixo a passar de 93 milhões de euros para 89 milhões de euros. Cerca de metade foi investido em florestação e reflorestação. 

Evolução de indicadores centrais na silvicultura
2012 – 2017

Valores a preços correntes; base 2011. Po: provisório.
Fonte: Contas Económicas da Silvicultura 2017, INE 

Evolução do valor da produção da silvicultura, por atividade
2012 – 2017

Valores a preços correntes; base 2011. Po: provisório.
Fonte: Contas Económicas da Silvicultura 2017, INE 

O valor “invisível” da economia da floresta 

A riqueza gerada diretamente pelas indústrias de base florestal e pela silvicultura é só uma pequena parte do valor da economia da floresta, já que os números não incluem o impacte da biomassa para a criação de novos produtos e geração de energia, do turismo de natureza, da caça e pesca em zonas florestais nem dos denominados produtos florestais não lenhosos, como a castanha, o pinhão, o mel, os cogumelos silvestres ou as plantas aromáticas e medicinais.

De fora da economia da floresta convencional ficam também os contributos menos tangíveis do oxigénio que respiramos, do carbono armazenado, da conservação da biodiversidade e paisagem, da preservação do solo e da água e do valor da floresta como espaço de recreação, desporto e lazer.

É difícil estimar o valor destes serviços ambientais, embora sejam uma preocupação recorrente e histórica na silvicultura. Estas preocupações estiveram até na origem do Regime Florestal de 1901 que decretava, a propósito, “o revestimento florestal dos terrenos cuja arborização seja de utilidade pública, e conveniente ou necessária para o bom regime das águas e defesa das várzeas, para a valorização das planícies áridas e benefício do clima, ou para a fixação e conservação do solo, nas montanhas, e das areias, no litoral marítimo”.

Apesar da dificuldade em quantificar estes serviços dos ecossistemas florestais, algumas investigações têm contribuído para aumentar o conhecimento sobre este tema.

Em 2019, foi feita uma avaliação económica de alguns serviços de ecossistema em paisagens agroflorestais europeias. Uma das conclusões foi, precisamente, que a inclusão de serviços de ecossistema não-comercializáveis aumenta a rentabilidade das paisagens agroflorestais. 

Quanto a Portugal, foi aprovada, também em 2019, a 1.ª Fase do Programa de Remuneração dos Serviços dos Ecossistemas em Espaços Rurais, em Diário da República. Contudo, a última avaliação global do valor da floresta portuguesa, que consta da primeira redação da Estratégia Nacional para a Floresta (2006), é baseada num estudo de 2001, com valores que se encontram já desatualizados: 1,3 mil milhões de euros, dos quais 12% estão alocados diretamente a serviços ambientais. O território florestal mudou desde então, assim como os preços que servem de base à avaliação.